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Lifestyle

Para além do espelho: uma conversa sobre amor próprio

21.06.2021
Tati Barros

O que você enxerga quando se olha no espelho? Lembro-me bem que, quando era criança, passei muito tempo sem me reconhecer naquela imagem refletida. A sensação que eu tinha é que a pessoa que aparecia ali era uma, e a que estava se vendo era outra. Foram incontáveis as vezes em que, no banheiro da escola, aos 7 ou 8 anos, eu me apresentava àquele reflexo: “oi, sou a Tatiana. Somos a mesma pessoa, mas não sinto isso”. Estranho, eu sei!

Isso é algo que nessas quase três décadas, nunca contei a ninguém, nem mesmo para minha terapeuta. Mas resolvi me abrir aqui para vocês, queridas desconhecidas, para exemplificar como a minha relação com o espelho já passou por diversas fases. Da menina que enxergava duas pessoas distintas dentro de si, para uma adolescente que se sentia infeliz com a sua própria imagem, até uma mulher que, entre fases de altos e baixos, aprendeu a se aceitar e se amar. 

E esse é um caminho que pode ser mais natural do que parece. Uma pesquisa publicada no ano passado na Harvard Business Review mostrou como a autoestima e a confiança são questões que, para as mulheres, estão ligadas ao trajeto percorrido. O que isso quer dizer? Simples! Que, à medida que os anos vão passando, nós sentimos um ganho na autoestima muito maior que os homens. O estudo mostrou que as mulheres chegam ao auge aos 60 anos, conseguindo superar os níveis de confiança relatados pelos homens dessa idade.

É claro que esse é um ponto que depende de vários fatores e deve ser levado em conta todas as vivências que cada pessoa passou. Mas achei interessante comparar com a minha trajetória até aqui, aos 32 anos. A cada ano que passa, sinto que sou mais dona da minha vida, responsável pelas minhas escolhas, e isso traz essa confiança que não temos quando mais novas, justamente, por não termos tanto controle sobre a nossa vida.

É inevitável pensar que seria melhor não precisarmos levar anos para conquistar esse amor próprio. A ausência de autoestima nos leva também a escolhas erradas, especialmente ligadas às pessoas com quem nos relacionamos. Por achar que eu não merecia tanto alguém que gostasse de verdade de mim, já me coloquei em relações que minaram ainda mais essa confiança. Provavelmente, muitas de vocês que estão lendo esse relato agora, irão se identificar. Mas, colocando o meu lado Pollyanna para jogo, prefiro acreditar que foram caminhos necessários para alcançar esse tão almejado destino chamado amor próprio.

Voltando a falar de números, uma pesquisa feita pela empresa Kantar, em 2019, procurou fazer uma amostragem de como está a relação da mulher com a autoestima. Os resultados mostraram que alguns fatores fazem com que as brasileiras não acreditem nos seus próprios valores. São eles: ausência de autonomia financeira (24%), autonomia sexual e corporal (23%), liberdade de pensamento e expressão (22%), representatividade (16%) e conexões sociais (15%). A falta desses elementos faz com que 20% das mulheres se sintam com baixa autoestima, um número que chega a ser quase 10% superior ao dos homens.

Embora não seja exatamente uma surpresa, isso é algo que me entristece. Sabemos que, quando essa autoconfiança não existe, deixamos de viver o melhor da nossa sexualidade, perdemos oportunidades profissionais, brigamos com o nosso corpo, entre tantas e tantas consequências.  

Infelizmente, não consigo terminar esse texto com uma fórmula mágica de como amar a pessoa que você é. Mas, posso dizer que esse é um exercício diário e constante. Em alguns dias, teremos mais sucesso que em outros, mas não podemos perder o olhar gentil sobre nós mesmas, mesmo nos piores dias. Abraçar esses momentos de fraqueza é também entender que não temos que ser perfeitas e, de alguma forma, aceitar nossas fragilidades nos torna mais fortes.  

Se tem uma coisa da qual nós mulheres fomos obrigadas a aprender na vida é sermos resistentes. E amar a nós mesmas, em uma sociedade que tenta nos diminuir, é um dos maiores atos de resistência que podemos ter! 

3 Comentários  |  Deixar Comentários

Comentários:
  1. Maria Vitoria Cavalcante    21/06/2021 - 16h59

    Que texto lindo, Tati, estava precisando ler, obrigada por se abrir conosco! Estou em um momento que nao me reconheço, tanto na imagem, quanto pelas mudanças na vida, mas buscando me reencontrar <3

  2. Fernanda V.    22/06/2021 - 12h46

    Que ótimo texto Tati! Obrigada por abrir seu coração!
    Por aqui tenho altos e baixos tbm, as vezes acho que sou crítica demais comigo mesma, me comparo profissionalmente com outras pessoas…
    Mas tento, juro, manter um equilíbrio.
    Ameiii seu último parágrafo, é isso!

  3. Nattany Martins    12/07/2021 - 13h48

    Depois de alguns processos realmente me sinto mais bonita e dona de mim mesma, sabe? Acho que o amadurecimento trás outro olhar sobre nós mesmas, a gente aprende a valorizar os perrengues que já passou, as coisas que aprendeu, a resiliência que adquiriu… Faz muito sentido isso.

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